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Sociólogo analisa os caminhos que Aécio Neves deve percorrer para conquistar nova parcela do eleitorado


Eleições 2014, social-liberalismo, PT, PSDB

Fonte: Artigo de Alberto Carlos Almeida – Valor Econômico

O PT, os outros e a democracia

Há três informações extremamente relevantes para se compreender o cenário político brasileiro no que tange à disputa entre o PT e os demais partidos e, em particular, o embate PT versus PSDB. A primeira informação diz respeito ao mínimo de votos nacionais que a atual oposição pode obter na corrida presidencial. Nas três vezes que o PT derrotou o PSBD, a menor proporção de votos dos vitoriosos em primeiro turno foi em 2002, quando Lula obteve 46,4% dos votos. A maior votação em primeiro turno foi em 2006, quando Lula alcançou 48,6%. Na eleição de 2010, o presidente em exercício alcançou 80% na soma de ótimo e bom. O cenário era francamente desfavorável para a oposição. Mesmo assim, o PSDB obteve 37% dos votos no primeiro turno. Enganam-se os que acham que esse foi o pior resultado dos tucanos. De modo algum. Em 2002, o então candidato do governo ficou com somente 23,2% de votos no primeiro turno.

Moral dos números: mesmo nas condições mais adversas possíveis, o voto oposicionista no Brasil é capaz de mobilizar, no mínimo, 37% dos eleitores. Portanto, é razoável supor que em 2014 o carismático e agregador Aécio Neves poderá alcançar uma proporção de votos maior do que esta. O principal obstáculo de Aécio para atingir esse desempenho é a eventual candidatura de Marina Silva. Marina construiu “recall” nacional em 2010. Sempre que um candidato faz isso, entra na eleição seguinte com mais musculatura. Foi assim com Lula nas diversas vezes que disputou e também foi assim com Ciro Gomes. Aécio sabe disso e, não por acaso, Marina recebeu recentemente o título de cidadã mineira.

A sociedade brasileira, quando se trata de eleição presidencial, é dividida entre os votos certos do PT e os votos certos do PSDB ou as ideias que ambos representam. Os dois partidos têm, cada um, pelo menos 40% de votos válidos certos. Isso significa que a eleição presidencial brasileira é definida pelos 20% de eleitores centristas. Esses são os eleitores mais pragmáticos, aqueles que não têm nenhum tipo de predisposição para votar nos petistas ou nos tucanos. Simplesmente votam, mais do que os 80% do eleitorado que formam os votos certos, com o bolso e baseados quase que exclusivamente na avaliação que fazem do governo.

É importante dizer que o Lula dos 80% de avaliação como ótimo e bom não foi capaz de fazer esses 80% votarem em Dilma. Isso é absolutamente normal. Os primeiros 20% que avaliam Lula como ótimo e bom são petistas fanáticos. Praticamente qualquer coisa que o PT fizer no governo será avaliada positivamente. Os 20% seguintes são simpatizantes do PT e daí para a frente (com mais 20% se obtêm 60% e somando-se mais 20 têm-se os 80 de Lula no fim de 2010) qualquer eleitor adicional que avalie positivamente um governo do PT poderá vir a votar no PSDB. Não há nada de errado nisso. O eleitor reconhece o bom desempenho de um governo do PT, mas, mesmo assim, não gosta do PT e por isso tende a votar na oposição. O mesmo raciocínio vale para um eventual governo tucano.

A oposição pode ficar quatro anos sem fazer oposição ou até mesmo fazendo uma oposição tíbia, tímida, quase inexistente. Quando chegar o ano eleitoral, porém, seu eleitorado de 40% estará lá presente e pronto a dar-lhe os votos. O Brasil é um país eleitoralmente dividido entre o que PT e PSDB representam. Essa divisão está profundamente enraizada e tem a ver com nossas crenças mais fundamentais. É ela que assegura que o Brasil sempre terá alternância no poder. Basta que um governo tenha desempenho ruim, e a oposição será chamada a se tornar governo.

A segunda informação diz respeito àquilo em que acreditam os parlamentares do PT e dos demais partidos grandes no que tange à economia. Uma pesquisa feita regularmente junto a nossos representantes em Brasília atestou que os parlamentares petistas são bem mais a favor do controle público sobre a economia do que os representantes do PSDB, PMDB e DEM. A divisão é bastante clara: de um lado, o PT; de outro, os três maiores partidos. Deputados federais e senadores do PT defendem que a economia seja controlada mais pelo governo do que pelas empresas privadas. Por outro lado, os parlamentares tucanos são bem mais favoráveis à economia de mercado. Todos sabem que essa diferença não é novidade. O fato é que está comprovada e devidamente documentada por uma pesquisa acadêmica.

A terceira informação também é conhecida de todos e comprovada pelas pesquisas do Datafolha. A simpatia partidária pelo PT, nacionalmente, atinge a casa de 25% do eleitorado, enquanto o mesmo indicador para o PSDB é de 6%. Mais importante do que isso, considerando-se a série histórica de pesquisas, a simpatia pelo PT vem aumentando desde 1989. Naquele ano, essa simpatia era de 7%, passou dos 10% em 1994, atingiu 21% em 2002, caiu em 2006 por causa do escândalo do mensalão e voltou a crescer no ano passado, atingindo seu patamar mais elevado. No mesmo período, a simpatia partidária do PMDB só fez diminuir e a do PSDB saiu de 2% e atingiu o máximo de 6%.

A evolução da simpatia partidária reflete o esforço de cada partido para construir uma marca clara diante do eleitorado. O PT sempre fez questão de defender ideias mais estatizantes juntamente com um discurso geral em defesa de políticas públicas que favorecessem os mais pobres. O PT construiu perante o eleitorado uma imagem de centro-esquerda. É essa imagem que assegura a simpatia partidária nacional de 25%.

Os adversários do PT não fizeram isso. Quem foi mais longe na construção dessa identidade foi abatido por seus próprios erros e ficou eternamente demonizado. Trata-se de Fernando Collor. O caçador de marajás sabia que seu adversário era o PT, e exatamente por isso buscou um discurso popular e mobilizador daqueles por ele nomeados de “descamisados”. Também por isso Collor colocava a sociedade contra funcionários públicos inescrupulosos que agiam em prejuízo da própria sociedade. Não podemos nos esquecer de que Collor escolheu um sindicalista para ministro do trabalho (Antônio Rogério Magri), justamente porque ele tinha total clareza de que o PT era seu principal adversário. O ideólogo de Collor foi o diplomata José Guilherme Merquior, que adaptou a ideologia de centro-direita ao Brasil por meio da ideia de “social-liberalismo”. É eleitoralmente inviável ser exclusivamente liberal em um país tão pobre e desigual como o Brasil.

Não existe mágica na política. É possível, sim, construir uma identidade de centro-direita no Brasil. A terminologia mais adequada seria mesmo a da identidade social-liberal. O eleitorado desse discurso, dessa visão de mundo, que é o eleitorado que não vota no PT, já assegura 40% dos votos em primeiro turno para quem defender esse credo. Ele terá que ser defendido de maneira popular, de forma a conquistar o coração dos eleitores. O que não falta são propostas e motes que façam do credo liberal adaptado às condições tropicais algo tão popular quanto o seu oposto. Vamos a alguns exemplos.

Grande parte da população brasileira não tem acesso ao transporte aéreo por causa de excesso de regulamentação. A construção de aeroportos regionais e o funcionamento de pequenas empresas com aeronaves menores pode ser viabilizado por meio de mais mercado e menos governo. O mesmo diz respeito ao barateamento do preço dos automóveis por meio da redução dos impostos sobre o consumo. A lista é longa. É fundamental que ela venha unida a uma simbologia não-elitista, a uma simbologia popular. O adversário é o PT e o país é o desigual Brasil, assim a centro-direita não pode dar chances de ser chamada de elitista.

Portanto, não se pode cair, por exemplo, na armadilha ultradireitista de Reinaldo Azevedo. Se fosse na França, ele seria ideólogo do movimento de Le Pen. Toda vez que o PSDB, ou aqueles ligados ao partido, defendem pontos de vista elitistas, se afastam da realpolitik brasileira e dão argumentos para seus adversários jogarem-nos no corner elitista e direitista. Foi esse o caso, por exemplo, do episódio da estação de metrô de Higienópolis. Aécio não é bobo, não cai nessa armadilha.

A adoção de uma versão revisitada do social-liberalismo pode ser o caminho viável para a construção de uma identidade oposta à do PT. Em todos os países do mundo desenvolvido há duas identidades claras, uma à direita e outra à esquerda do centro político. O Brasil está desbalanceado, só tem à esquerda. Cedo ou tarde isso será construído à direita. Se a atual oposição acelerar esse processo, será bom para ela, para seu principal adversário e para a democracia.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo”

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