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“Tenho que superar gargalos históricos no Estado e que são de responsabilidade do governo Federal”, disse Antonio Anastasia em entrevista ao UOL/Folha


Leia a íntegra da entrevista de Antonio Anastasia à Folha e ao UOL

Fonte: UOL/Folha

O governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB), participou do programa “Poder e Política – Entrevista”, conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília. O projeto é uma parceria do UOL e da Folha.

Narração de abertura: O governador do Estado de Minas Gerais, Antonio Augusto Junho Anastasia, do PSDB, trabalha há 26 anos na administração pública.

Nascido em Belo Horizonte, tem 50 anos é professor de Direito da Universidade Federal de Minas.

Ao longo da carreira, trabalhou na Assembleia Legislativa mineira, no governo do Estado e em Brasília, de 1995 a 2002, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Em 2003, foi nomeado secretário de Planejamento e Gestão pelo então governador Aécio Neves. Ajudou a fazer mudanças no funcionalismo divulgadas como “Choque de gestão”.

Eleito vice de Aécio em 2006, assumiu o governo em 2010. Em outubro do mesmo ano, Anastasia venceu a eleição para mesmo cargo e assumiu novo mandato de 4 anos em janeiro de 2011.

Folha/UOL: Olá internauta. Bem-vindo a mais um “Poder e Política – Entrevista”.

Este programa é uma parceria do jornal “Folha de S.Paulo”, da Folha.com e do UOL. A gravação é realizada aqui, no estúdio do Grupo Folha, em Brasília.

E o entrevistado de hoje é o governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, do PSDB.

Folha/UOL: Olá governador, muito obrigado pela sua presença aqui. Eu começo perguntando sobre o seu relacionamento com a presidente Dilma Rousseff. O senhor foi recebido já algumas vezes, parece que tem um excelente relacionamento com a presidente, fala muito com ela. Do que o senhor tanto fala com a presidente Dilma?

Antonio Anastasia: Primeiro eu quero agradecer, Fernando, a gentileza do convite para estar aqui, cumprimentar a todos internautas. É uma grande honra. E quero lhe responder que há uma convivência administrativa harmônica. Não só entre o governador de Minas e a presidenta da República, mas entre os governadores como um todo. Nós sabemos que somos de partidos opostos, fizemos campanha em campos opostos durante as eleições no ano passado, mas depois das eleições passadas nós temos que ter a maturidade, nós todos, de que o Brasil é uma federação. A Federação nos elegeu, cada qual na sua esfera, para nós resolvermos os problemas e superarmos os obstáculos, independente dos partidos.

Nós temos um relacionamento que é, como eu disse, respeitoso. Muitos interesses de Minas, na verdade os maiores gargalos de Minas hoje são questões de competência do governo federal, especialmente na área da infraestrutura. E, portanto, nós temos diversas reuniões, demandas que são da alçada do governo federal.

Folha/UOL: O senhor fala muito com ela ao telefone?

Anastasia: Não… Falo quando necessário… Não há uma fala frequente. Mas volto a dizer: temos é… Uma estima recíproca porque, até uma trajetória sob certo aspecto semelhante entre nós dois. Eu já tive muitos contatos com ela quando eu era o vice-governador de Minas e ela ministra da Casa Civil e coordenadora do PAC. Porque eu também coordenava o PAC por delegação do então governador Aécio Neves em algumas questões de saneamento e vinha muitas vezes a Brasília, muitas reuniões aqui e também em Belo Horizonte. Então volto a dizer, é um relacionamento recíproco e também baseado em algumas experiências comuns do passado em Belo Horizonte, apesar de uma certa diferença de geração, mas não muito grande. Então tivemos de fato… Temos pontos em comum até da memória afetiva da nossa cidade.

Folha/UOL: Outro dia esteve aqui o agora ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, e revelou que votou em José Serra para presidente da República. O senhor fez campanha para José Serra, é do PSDB. E Jobim disse que o governo de Serra seria muito parecido ao de Dilma. O senhor acha que o governo de Serra, tivesse ele vencido, seria parecido com o de Dilma Rousseff?

Anastasia: O governo Serra seria um governo muito bom. O governador Serra, senador Serra, prefeito, é um homem de muita experiência, muito preparado. Seria certamente um grande presidente. É um bom executivo, assim demonstrou na Prefeitura de São Paulo e no governo do Estado de São Paulo. Eu, pessoalmente, tenho com ele também um relacionamento muito bom. Fizemos campanha firma em Minas por ele. Tenho certeza de que seria um grande governo.

A presidenta Dilma faz um governo também que tem um reconhecimento. As pesquisas comprovam isso. [Dilma] tem as suas dificuldades, como nós todos temos.

Mas eu acho, respondendo à sua indagação, que existem pontos convergentes. São pessoas que me parecem que tendem ao perfeccionismo, que gostam de trabalhar muito, são muito dedicados. Então certamente existem pontos que são convergentes. Mas existem outros que são, evidentemente, divergentes como, aliás, a campanha demonstrou em diversos aspectos.

Folha/UOL: O senhor tem algum reparo principal a fazer sobre a administração federal da presidente Dilma Rousseff?

Anastasia: O governo federal enfrenta uma situação financeira que, é…, Vamos dizer assim… Tem que ser analisada com cautela, ainda mais agora agravada com essa questão econômica internacional. Então eu poderia dizer que o governo federal ainda não iniciou na sua plenitude, isso é próprio dos primeiros anos de todos os governos, não iniciou na sua plenitude todas as suas ações, os seus programas.

Eu gostaria que já tivéssemos, no caso de Minas Gerais, iniciado alguns programas, como eu disse, que são fundamentais, especialmente na infraestrutura física, na área de obras, as estradas federais de Minas Gerais que ainda não se iniciaram.

Mas as tratativas vão bem. Gostaria também, disse isso publicamente, várias vezes, que nós tivéssemos o aeroporto de Confins, por exemplo, incluído entre aqueles aeroportos que seriam objeto de parceria privada na primeira leva e não o foi. Mas não posso fazer nenhum reparo, assim, objetivo.

Lamentamos igualmente um veto que aconteceu pela presidenta Dilma em relação a um artigo incluído pelo Senado numa Medida Provisória que estendeu benefícios na indústria automobilística, que beneficiaria o norte de Minas. Lamentamos que para nosso juízo foi uma decisão que não ajudou o nosso Estado. Compreendemos os motivos de ordem econômica, mas eu acho que o governo vai… O governo Federal, como também o dos Estados, eles vão ter um avanço maior a partir do segundo ano, porque o primeiro, normalmente, é o ano de se arrumar a casa, fazer o planejamento e de se preparar as ações.

Folha/UOL: Que nota o senhor dá, de zero a dez, para o governo Dilma até agora?

Anastasia: É muito difícil a um governador que é de oposição dar uma nota. Porque se eu vier a dar uma nota alta, o meu partido… “Ah, o governador tinha [ininteligível] nota baixa”. Se eu der uma nota baixa gera uma situação de desconforto. Então…

Folha/UOL: Ainda assim.

Anastasia: Mesmo assim, nessa hora me permita avocar a minha condição de político mineiro e, por isso mesmo, apesar de ser professor e gostar de dar as notas, eu acho melhor não dar uma nota. Porque a nota é sempre muito relativa. Eu podia dar uma nota quanto à performance pessoal, quanto à sua cordialidade, com relação à questão de Ministérios que são distintos. Nós tivemos durante esse período, esses… Sete meses de governo, com alguns Ministérios um relacionamento extremamente positivo. Eu citaria o Ministério da Integração Nacional, por exemplo. Ou outros, como o próprio Ministério dos Transportes, a relação de fato não foi boa exatamente pela ausência dessas obras. Então é difícil dar uma nota que vá refletir o todo. Eu seria certamente injusto.

Folha/UOL: Que nota o senhor se auto-atribui até agora?

Anastasia: Eu acho que eu poderia me atribuir uma nota mediana. Uma nota sete. O meu governo sucede ao governo Aécio Neves, que foi um governo muito bem avaliado. E, naturalmente, substituir um governo muito bem avaliado sempre é difícil. É natural que as expectativas das pessoas sempre são maiores. Então meu objetivo naturalmente, principal, é fazer a conclusão dos grandes programas que nós lançamos. E nas novidades, principalmente em termos de Copa do Mundo, deixar o Estado [de Minas Gerais] preparado para aquele que vier a me suceder. Então acredito que, de maneira rigorosa, nós temos de manter o Estado num trilho firme de responsabilidade fiscal, objetivo fundamental para manter a nossa boa governança e que deu a Minas Gerais, felizmente, o reconhecimento bastante expressivo no cenário internacional. E, por outro lado, nós temos também de inovar. E tenho me permitido um esforço maior em algumas atitudes pioneiras de políticas sociais. Lamentavelmente eu não posso, Fernando, no caso de Minas Gerais, como no caso de outros Estados também não podem, universalizar os programas sociais. Porque nós não temos recursos financeiros suficientes para tanto. Então precisaria ter uma reforma tributária, que é outro tema complexo, para que os Estados pudessem fazê-lo. Mas na ausência dos recursos que podem lastrear essa universalização, o que nós temos feito é lançado diversos projetos piloto, aumentando-os gradativamente para demonstrar que a metodologia é correta.

Folha/UOL: Corrupção: muitas notícias sobre mal feitos na Esplanada dos Ministérios ultimamente. O que está acontecendo? Tem mais corrupção ou os órgãos de controle estão fiscalizando mais?

Anastasia: A situação anterior à Constituição de 88 era uma e hoje nós temos outra. Então nós temos plena liberdade de imprensa, felizmente. Nós temos Ministério Público forte, respeitado e reconhecido. Nós temos a Polícia Federal com a sua autonomia. Nós temos os órgãos de controle, o Tribunal de Contas, o controle interno. Todos funcionando como um sistema. Claro que eles vão se aprimorando ao longo do tempo, porque sob esse aspecto nós somos relativamente modernos, relativamente recentes. E nós passamos a ter um controle maior. Os casos se tornaram felizmente mais intoleráveis sob o ponto de vista da opinião pública. Os gestores políticos, técnicos, passaram a perceber, felizmente, que isso não é possível compartilhar e compactuar com esse tipo de medida. O mundo político passa a perceber que a impunidade não existe mais. Então fico satisfeito.

Folha/UOL: Mas no caso do governo Dilma já houve alguns casos. O seu partido, o PSDB, os partidos de oposição, têm cobrado muito a instalação de uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito], senão da corrupção em geral, de alguns casos específicos. O senhor considera necessário que se instale uma CPI para apurar esses casos já conhecidos agora?

Anastasia: Entre os instrumentos de fiscalização no poder Legislativo está a CPI, que tem seus métodos, seu mecanismo. Eu acho que uma CPI pode ser levantada, meu partido apoia, tem tranquilamente todo o nosso apoio porque, o que a CPI vai apurar… Claro, dentro de limites e dentro de critérios que permitam defesa. Também aqui ninguém pode defender linchamento moral de pessoas antes de provas. Porque visto infelizmente no Brasil. O caso americano [sic] recente do nosso Dominique [Strauss Khan, francês, ex-diretor do FMI] foi muito típico disso.

Folha/UOL: Mas o senhor acha então… Vamos citar um caso mais rumoroso que foi o dos Transportes, agora temos outro caso no Ministério do Turismo. O senhor acha que nesses casos cabe, como pede o seu partido, instalação de CPIs?

Anastasia: Volto a dizer: a CPI sozinha talvez não consiga apurar tudo porque é claro que ela tem os seus métodos. Ao lado da Polícia Federal, do Ministério Público, do Tribunal de Contas é mais um bom instrumento de averiguação. Pode ser que ela consiga ou não. Mas é mais um mecanismo que nós temos a favor da fiscalização que possa ajudar nesse controle.

Folha/UOL: E só para eu entender: o senhor acha então que seria bom e o senhor seria favorável à instalação?

Anastasia: Se eu fosse parlamentar de meu partido naturalmente assinaria a listagem, o abaixo-assinado, a favor.

Folha/UOL: O senhor é governador e, evidentemente, tem contato com os congressistas do Estado de Minas Gerais. Se eles se consultarem com o senhor, o que devem fazer, o senhor diria “sim, acho que devem assinar uma CPI”.

Anastasia: Sim. Assim já fizeram. Senadores que são da nossa base de apoio no âmbito do Estado no Senado, tanto o senador Aécio Neves [PSDB-MG] quanto o senador Zezé Perrela [PDT-MG, presidente do Cruzeiro].

Folha/UOL: E na Câmara os deputados também?

Anastasia: Os deputados também. Aqueles que estão na nossa base.

Folha/UOL: O senhor acha que o governo está reagindo com a rapidez e a correção necessária nesses casos todos que conhecemos agora?

Anastasia: É difícil eu dar uma opinião de fora. Porque eu não conheço nas entranhas…

Folha/UOL: Mas pelo que o senhor acompanha…

Anastasia: Pelo que eu acompanho pelo jornal, me parece que o governo tem tomado medidas de afastamento… O caso agora do Ministério do Turismo inclusive com a prisão do secretário-executivo… A Polícia Federal tomou as atitudes…

Eu volto a dizer: é muito delicado, ainda mais publicamente, eu dar uma opinião não só como governador, mas como professor de direito que sou e por isso mesmo tenho que ser respeitador dos direitos das pessoas, não conheço os processos, mas acredito que as medidas estão sendo tomadas e estão sendo… Agora, claro que nós podemos aprofundá-las. Até porque não adianta tão somente essas medidas iniciais. Nós temos sempre de averiguar o que nós vamos incorrer em termos das denúncias que se desdobram para evitar o que é mais grave de tudo que é a impunidade.

Folha/UOL: Desses episódios todos, algum fato específico chamou particularmente a atenção do senhor?

Anastasia: A minha preocupação número um é governar Minas Gerais e fazer uma entrega de resultados ao povo mineiro que me elegeu. Para isso eu tenho que superar gargalos históricos no Estado e que são de responsabilidade do governo Federal, do Ministério dos Transportes. Então, os acontecimentos do Ministério atrapalham e atrapalharam a realização dessas obras. Então essa é a lástima maior. Então quando eu vejo que essa situação acaba levando prejuízos ao mineiro, ao usuário das nossas estradas, eu só posso lamentar e torcer para que a situação se normalize o mais rápido possível.

Aliás, liguei ao ministro dos Transportes solicitando dele empenho para que sejam logo resolvidos esses temas.

Folha/UOL: O senhor acha que o aparelhamento da máquina pública em determinados setores e, por consequência, a corrupção aumentou durante a administração do PT no plano federal ou não?

Anastasia: Nós não temos ainda dois pressupostos, digamos assim, de um estágio democrático pleno no sentido das instituições, que são partidos políticos fortes, bem ideologizados e com permanência no dia a dia do cotidiano do cidadão e uma burocracia estável. A burocracia estável que é o tema mais relevante que temos hoje no aspecto da meritocracia, essa burocracia ela vai se consolidando.

O quadro de hoje é melhor em todas as esferas, inclusive da União, dos Estados e dos municípios do que foi há algum tempo atrás. Mas nós temos que continuar aprofundando isso. Agora, o modelo brasileiro desse presidencialismo compartilhado, que é presidencialismo, mas o parlamento também tem muita força, foi o modelo híbrido adotado pelo nosso constituinte em 1988, leva a ter de fato essa espécie de… de… Essa composição heterogênea, que parlamentares podem ser ministros… Mas o que nós não podemos ter uma, vamos dizer assim, um desdobramento automático, é que a presença daquele que é indicado pelo partido signifique corrupção.

Folha/UOL: O seu partido, o PSDB, teve um candidato a presidente da República no ano passado, José Serra, em 2010. E houve nos bastidores muitas críticas, dentro da campanha de José Serra sobre o maior ou menos engajamento de alguns setores ou sessões partidárias do PSDB. No seu caso, a impressão que se teve geral é que o engajamento do senhor e do seu colega de partido,Aécio Neves, não foi no grau máximo que talvez José Serra esperasse de engajamento à campanha dele. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Anastasia: Que lamentavelmente essas fofocas existem, né? Pode perguntar… E o próprio Serra, na época, quando esse assunto vinha à tona, ele mesmo dizia: “Anastasia, manda perguntar para mim. Para mim, José Serra, qual é o grau de envolvimento de vocês na campanha.” Para ele próprio responder que era testemunha do envolvimento máximo e absoluto. Tanto no primeiro quanto no segundo turno. Das viagens, do esforço da campanha realizada.

Folha/UOL: Mas havia correligionários seus, durante a campanha, que pregavam o voto “dilmasia”, o voto em Dilma Rousseff para presidente e Antonio Anastasia para governador.

Anastasia: Por causa dos partidos. Eram candidatos apoiados… Eram candidatos do PSB, candidatos do PDT, que eram partidos que estavam coligados com a presidente. Esses nós não podíamos compeli-los, porque eles estavam, sob o ponto de vista político inclusive, na composição partidária da presidente. Então, de fato, nesse aspecto, nós não teríamos como, inclusive, com riscos de ferir a legislação, compeli-los ao apoio ao candidato José Serra, já que seus partidos apoiavam publicamente e formalmente a candidatura de Dilma Rousseff. Mas o esforço do PSDB de Minas Gerais, dos Democratas de Minas Gerais, do PPS de Minas Gerais, dos partidos que estavam na nossa base, foi muito forte. Tanto que José Serra ganhou a eleição em Belo Horizonte, uma cidade tradicionalmente vocacionada à oposição, que votou durante a vida inteira no PT.

Folha/UOL: O senhor gostou do processo de escolha do candidato José Serra no passado, 2010?

Anastasia: Nós advogávamos em 2009 ainda a possibilidade das prévias. Quando falo nós, a sessão mineira, capitaneada pelo então governador Aécio Neves. Mas quando o próprio partido é… Acabou optando por não realizar, o governador Aécio então decidiu retirar da disputa e apoiar José Serra. Eu, pessoalmente, sempre tive simpatia muito forte pelas prévias. Ainda hoje acho o método correto porque ele inclusive vitamina o partido, ele robustece o partido. Ele dá mais musculatura. Porque no Brasil, como eu dizia, uma certa fragilidade partidária, os partidos acabam tendo uma movimentação maior nos períodos eleitorais. Nós temos de tentar, um esforço de todos os partidos, do nosso partido inclusive, do PSDB, de estar mais presente no cotidiano da vida comum das pessoas. E as prévias, naturalmente, são um mecanismo disso. Para identificar quem são os membros, quais são aqueles que participam, quais são as ideias que ele vem. O caso americano é sintomático. O presidente Obama era completamente desconhecido, antes das prévias, considerado, assim… Um azarão, digamos. E foi o movimento das prévias que o fez candidato e o fez presidente.

Folha/UOL: Posso entender então que o senhor, ainda está muito longe 2014, mas advoga que para 2014 o seu partido adote o sistema de prévias internas para escolher quem será o candidato ao Planalto?

Anastasia: Caso haja mais de um candidato, com condições de disputar eu acho que sim. Foi essa a nossa proposta lá atrás em 2009, em 2008. E eu acho que isso é perfeitamente viável. Então dependerá claro do quadro. Se houver dois, três candidatos com peso eleitoral, pessoas preparadas, que tenham de fato dimensão e condições eu acho que o caminho das prévias é o mais adequado.

Folha/UOL: Em política a gente só deve fazer previsões sobre o passado, eu sei. Mas ainda assim eu vou perguntar: o senhor acha que em 2014 o PSDB tem a embocadura de ter um candidato comoAécio Neves ou insistir com os candidatos que já disputaram a Presidência da República?

Anastasia: Essa pergunta é muito simples. E muito fácil de eu responder por que, desde aquela época, eu já advogava e não só eu, mas a maioria esmagadora dos mineiros a candidatura do governador Aécio Neves. Por que motivo? Acreditamos que Aécio pela sua trajetória, pelo seu patrimônio político, pela sua dimensão… Não só em Minas, mas em todo o Brasil, tem todas as condições de ser um excelente candidato e ser vitorioso e ser um excelente presidente para o Brasil. Mas, como ele mesmo sempre disse, a Presidência nem sempre é um projeto, é muito mais destino. São circunstancias naquele momento à candidatura e a eleição.

Folha/UOL: No caso de José Serra, que já disputou duas vezes a Presidência da República, seria conveniente que ele se retirasse da disputa agora para que Aécio fosse candidato?

Anastasia: O ex-governador Serra tem legitimidade, até também pelo seu currículo, para pleitear qualquer função dentro do partido e como candidato. Eu acho que nós da seção mineira do PSDB temos a vontade e, até mesmo, os mineiros têm o sonho e a grande disposição de ajudar Aécio para que ele seja o candidato do PSDB. Mas se ele não for nós vamos continuar marchando com o candidato do partido, seja ele Aécio, Serra, Alckmin ou Fernando Henrique… Qualquer outro nome que o partido…

Folha/UOL: O senhor acha que, em São Paulo, o PSDB deveria recomendar ao ex-senador, ex-candidato a presidente Serra que fosse candidato a prefeito da cidade?

Anastasia: Eu acho que para qualquer candidatura, o primeiro pressuposto é a vontade da pessoa. Mas se a pessoa não quiser ser candidato, se não tiver ali o ânimo, a vontade, a disposição de fazer a campanha, de ser candidato, ele não poderá sê-lo. Se o governador Serra quiser ser candidato, será um candidato… Não digo imbatível, porque em eleições isso não ocorre… Mas um candidato fortíssimo, com muito reconhecimento com tudo o que já fez. Mas vai depender muito da sua vontade naturalmente. E das circunstâncias políticas.

Folha/UOL: Se o senhor tivesse que dar um conselho ao José Serra sobre o ano que vem, o senhor diria: Serra, dispute a prefeitura?
Anastasia: Não. Eu diria: “Serra, escute o seu coração”.

Folha/UOL: Mas com a sua experiência política sobre a conjuntura política em geral, o que o senhor diria?

Anastasia: A minha experiência é muito menor que a dele então, por isso mesmo, tem condições… Que eu acho que ele que vai sentir se, de fato, deve ou não ser candidato. Para o PSDB, certamente, para o partido, a candidatura dele me parece uma candidatura muito positiva e que fortalece o partido. Agora as circunstâncias para o PSDB de São Paulo são distintas lá do PSDB de Minas Gerais. Então também eu… Muito… é… Delicadas essas opiniões de fora. Mas eu acho que o mais importante é que ele indague dele próprio se ele quer. E querendo tenho certeza de que vai ter o aplauso geral. Ontem mesmo, ou anteontem, o governador Geraldo [Alckmin, do PSDB de São Paulo] manifestou-se também, salvo engano, que o nome do nosso ex-governador Serra é o nome mais forte, como de fato é… Então seria novamente um grande prefeito.

Folha/UOL: E em Belho Horizonte? O PSDB tende a apoiar a candidatura de Márcio Lacerda ou terá um candidato próprio?

Anastasia: Bem, a eleição de 2008 em Belo Horizonte foi uma eleição muito emblemática porque naquele momento houve uma composição entre o PT e o PSDB, e outros partidos, o PSB especialmente, que é o partido do presidente Márcio, uma aliança informal a favor da cidade, uma composição entre o governador da época, Aécio, o prefeito de Belo Horizonte da época, Fernando Pimentel, no apoiamento do nosso colega de secretariado, ex-secretário de Estado, o Márcio Lacerda.

Nós do PSDB temos responsabilidade na administração do prefeito Márcio Lacerda. Temos secretários municipais do PSDB, temos diversas parcerias sob o ponto de vista político inclusive, além dos administrativos que seria rotina independente do partido. Agora, para o ano que vem, o quadro naturalmente tem as suas modificações porque 2008 não repete 2012…

Folha/UOL: Como será o quadro?

Anastasia: Aí é… Repetindo aqui a sua própria frase, que a previsão só se faz para trás e não para frente, é muito difícil dizer o que vai acontecer em 2012. Há, primeiro lugar, uma disposição das partes conversarem. O próprio prefeito tem o intuito de repetir essa aliança, o arco político que o apoiou, e é claro que vai depender muito das conversas que vão ser realizadas.

Folha/UOL: É bom para o PSDB ter um candidato próprio, talvez, em Belo Horizonte?

Anastasia: Sempre é bom para o partido ter o seu candidato, desde que esse candidato tenha suas condições, sua viabilidade eleitoral, tenha uma propaganda a ser levantada, tenha uma bandeira correta.

Folha/UOL: Quais seriam esses nomes?

Anastasia: Existem vários nomes em Belo Horizonte. Deputados federais que são votados em Belo Horizonte. Podia citar o secretario geral do partido [PSDB], o deputado federal Rodrigo de Castro, por exemplo, que é um nome. E temos na nossa base aliada diversos outros, diversos outros partidos que têm também os seus pré-candidatos, digamos assim.

Em 2008, e fazendo a previsão para trás, a essa altura em 2007, no ano anterior, o atual prefeito Márcio Lacerda nem filiado a partido o era.

Folha/UOL: Publicidade: o governo de Minas Gerais tem sido um governo entre os governos estaduais que investe bastante em publicidade. O senhor pretende manter a média de gastos de publicidade do governo anterior, que em parte foi seu, ou reduz? E mais: acha um bom investimento para a população esses gastos em publicidade?

Anastasia: Nós fizemos um levantamento de um ranking de quanto que Minas gasta per capita com publicidade, vis a vis dos outros Estados e do governo federal. Minas Gerais é dos últimos Estados. Então, ou seja, a nossa despesa de publicidade é muito pequena. Minas Gerais não gasta por ano… São R$ 85 [milhões], R$ 90 milhões de reais por ano. Gastamos menos do que a prefeitura de Belo Horizonte, em termos per capita. Eu acho um investimento importante na medida em que leva informação, que leva quais são os programas que estão acontecendo. Muitas vezes nós observamos as políticas públicas e as pessoas nem sabem… Ainda mais Minas que é um Estado muito grande, muito desigual ainda, as pessoas nem sabem da existência dos diversos programas. Eu acho que é um gasto importante. Agora, a cautela nos recomenda hoje, hoje, que nós não façamos novos investimentos em nada, exatamente em razão da situação econômica mundial.

Folha/UOL: Algumas associações de jornalistas às vezes reclamam sobre a influência que o governo do Estado de Minas tem sobre os meios de comunicação no Estado de Minas Gerais. Isso existe?

Anastasia: Basta ler os jornais de Minas Gerais nesses últimos meses, não é… A oposição normal, as observações em relação ao governo, que são próprias do dia a dia. Então não acho que isso… De fato criou-se uma certa lenda urbana no passado, mas que nesses últimos… Nesse meu mandato, ao contrário, eu poderia até aqui… é… Me lamentar, o que não faço, de ter uma vigilância correta, que faz parte do dia a dia.

Folha/UOL: No ano passado, na sabatina da Folha de S.Paulo e do UOL, o senhor disse que o Brasil ainda não tem condições para liberar certas drogas leves como a maconha. O mais ilustre integrante do seu partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acha que sim, já é o momento de o país estudar e liberar o uso da maconha. O que o senhor acha que falta para o Brasil chegar nesse estágio que propõe o ex-presidente Fernando Henrique?

Anastasia: Primeiro, é uma questão muito de convicção pessoal. Naturalmente respeito e sempre com absoluta… é… Com respeito e admiração às posições do presidente Fernando Henrique. Mas acabei de lançar em Minas Gerais um programa que pretendo seja um dos mais fortes do meu governo que chamado Aliança por uma Vida de Combate às Drogas. O que a droga tem feito, quando falo droga de modo geral, que envolve evidentemente a maconha com aspecto menor, mas o crack em termos de segurança pública, educação e emprego é uma tragédia. E, naturalmente, a maconha acaba sendo, muitas vezes, pelo seu uso indevido porta de entrada para essas drogas mais altas. Então, pessoalmente, mantenho a minha posição, uma posição contrária. Acho que nós não temos essa maturidade na nossa estrutura. E alguns exemplos, como eu me lembro bem que respondi na época à sabatina da Folha, de outros países que adotaram e tiveram também de recuar. Agora, que o quadro atual, e nesse ponto tem razão Fernando Henrique, é um quadro de derrota dos poderes públicos e da sociedade no combate à droga é verdade. O que temos de fazer? Esta é a pergunta que não quer calar.

Folha/UOL: O sr. defendeu logo que foi eleito e tomou posse a volta da CPMF como uma forma de financiar saúde. O sr. é a favor da volta da CPMF?

Anastasia: Naquela época foi me perguntado a respeito da CPMF e eu respondi e logo depois viajei para o exterior e eu não pude esclarecer bem. Em primeiro lugar, que a CPMF quando foi retornada tinha tido o apoio na votação do Congresso de todos os governadores, inclusive na época os da oposição, São Paulo, Minas, entre outros governadores. Era uma forma de financiamento da saúde. A saúde tem de ter um financiamento específico. Agora, a carga tributária brasileira ela, de fato, ela é neste momento, no nível do insuportável. Então nós não podemos cogitar, eu disse isso à exaustão, nós não podemos concordar com a criação de novos tributos fora de uma grande reforma tributária que tenha uma redução geral da carga tributária. Então, esse é o drama. Nos moldes propostos, a resposta é não. Não sou favorável, meu partido também não é e a sociedade não poderia tolerar a volta de CPMF. Mas que a saúde tem de ter um tratamento diferenciado, que não sei qual é ainda, isso deve ter.

Folha/UOL: As medidas na área econômica tomadas recentemente pelo governo são as corretas, suficientes para que o Brasil minimize o impacto que terá a crise financeira internacional aqui no país?

Anastasia: Eu acho talvez que elas estão no caminho certo. Não posso dizer que são as corretas nem as suficientes porque a crise no seu início. Deus queira que não ocorra, porque os mais prejudicados são os Estados federados e os municípios que acabam recebendo menos das transferências constitucionais. Minas Gerais em especial por ser um Estado em que a economia é muito globalizada naturalmente é um Estado que acaba tendo um impacto muito maior da crise econômica. Então, o meu grande desejo é que não ocorra em nenhuma hipótese a crise econômica. Mas, existindo, o governo federal é responsável pela adoção dos instrumentos de política econômica. E tem de fazê-lo, através do estímulo ao mercado interno. Então, eu faço votos e torço para que dê certo e que todas as medidas que tenham sido tomadas e outras que venham a ser tomadas sejam suficientes para superar a crise econômica que é coisa que nenhum brasileiro deseja.

Folha/UOL: O sr. achou correto dar subsídios para essas indústrias que são contratadoras intensivas de mão de obra?

Anastasia: Sim, acho que sim. São indústrias que são, primeiro, intensivas de mão de obra. Na cadeia automobilística elas acabam agregando valor desde que seja, realmente, produzido no Brasil. Há uma estrutura de fornecedores muito grande. Eu acho que é uma cadeia industrial importante que nós deveríamos estimular no Brasil. O meu temor sempre foi -e Minas também sofre com isso- um processo de desindustrialização.

Folha/UOL: O que Minas Gerais e Belo Horizonte ainda podem fazer para obter da FIFA o jogo inicial da Copa de 2014?

Anastasia: Nós estamos cumprindo tudo do caderno de encargos da Fifa. Estamos tendo um estádio com 70 mil lugares, com todas as condições ideais. Vai ser um estádio -e aqui falo imodestamente como mineiro- o estádio mais bonito da Copa, até pela localização do Mineirão, pelo seu sítio. Nós estamos preparando a infraestrutura da cidade junto com o governo federal e com a prefeitura. A reforma do aeroporto de Confins segue nessa mesma linha. Então nós vamos ter tudo preparado. Se por ventura a Fifa fizer essa escolha, Belo Horizonte estará à altura da abertura. Mas nós sabemos que é uma decisão exclusiva da Fifa, não é, por seus critérios e nós queremos ser competitivos. Vamos fazer todo o nosso dever de casa para que Belo Horizonte seja considerada no momento da escolha.

Folha/UOL: Belo Horizonte serviria melhor à Fifa do que o estádio em São Paulo que ainda não existe?

Anastasia: …É… O estádio de São Paulo não existe. Claro que São Paulo tem uma estrutura urbana melhor do que a de Belo Horizonte. Isso é inegável. Mas eu acredito que Belo Horizonte, na ausência do estádio em São Paulo, passa a ser uma alternativa que deva ser considerada pela Fifa. Nós temos a Copa das Confederações, de 2013, onde Belo Horizonte será uma das sedes mais importantes, será um bom teste para nós mostrarmos a nossa capacidade de nós fazer tudo isso bem a contento.

Folha/UOL: Última pergunta. O sr. foi reeleito governador e em 2014 não pode mais candidatar aogoverno de Minas. O sr. pretende continuar na vida política e eleitoral e se candidatar a outros cargos?

Anastasia: Na vida pública, e a sua pergunta foi muito inteligente por isso, pretendo porque a minha carreira toda é exatamente de vida pública. Como membro do partido, no meu partido, o PSDB, do qual sou muito orgulhoso, certamente também permanecerei. Agora, as questões eleitorais ainda têm muito tempo para decidir até lá.

Folha/UOL: O sr. teria desejo de ter uma carreira, por exemplo, no Legislativo?

Anastasia: É a mesma coisa que eu sugeri, claro, com muito respeito, ao [ex-]governador Serra: no momento oportuno eu vou ter de consultar o meu coração.

Folha/UOL: Muito obrigado governador Anastasia por sua entrevista à Folha e ao UOL.
Anastasia: Muito obrigado, Fernando, foi um grande prazer.

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