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Presidente da Usiminas, Wilson Brumer, não vê cenário promissor em curto prazo para setor siderúrgico – executivo foca na modernização para melhorar competitividade


“Será um desafio chegar a um valor de mercado de R$ 50 bi”

Fonte: Nivaldo Souza – Brasil Econômico

Executivo confia na modernização da maior produtora brasileira de aços planos para reagir à mudança do cenário siderúrgico mundial e espera avaliação positiva das ações na bolsa em 2015

ENTREVISTA WILSON NÉLIO BRUMER –  Presidente da Usiminas

À frente da Usiminas há pouco mais de um ano, Wilson Brumer não vê um cenário muito promissor para a siderurgia no curto prazo. “O conceito de que o aço brasileiro é mais caro não existe mais”, avalia. “O Brasil acompanha preços internacionais. O país ainda pratica um prêmio de 10% a 12% (sobre o preço internacional). Mais do que isso motiva importação.”

O executivo foca, agora, numa a reformulação interna mais suave que a tentada por seu antecessor. Mineiro de fala calma, Brumer investe na mudança a partir da cúpula, tendo reduzido os gerentes de 144 para 109 e criado uma nova estrutura de diretoria. Investida estratégica que fazer parte do ele chama de “processo de convencimento”. A meta é tornar a Usiminas mais moderna em 2015, quando encerra série de investimentos.

Fora da seara organizacional, o executivo ocupa parte do tempo para alertar sobre os riscos da importação. O tema será apresentado por ele à presidente Dilma Rousseff, em setembro. “Vamos falar de logística, carga tributária e guerra fiscal”, antecipa nesta entrevista ao BRASIL ECONÔMICO. O setor não entrou nas benesses fiscais do pacote indústria nacional criado pelo Planalto na última semana. “Será que o país pode se dar ao luxo de perder uma cadeia produtiva como a siderúrgica?”, provoca.

O senhor foi contratado em meio à crise com os funcionários, durante a tentativa de modernizar a gestão da Usiminas. Os conflitos estão resolvidos?

Logo que cheguei, disse que a gente não ia mudar muito a estratégia da empresa. Era uma questão mais de estilo de gestão. O Marco Antônio (Castello Branco, ex-presidente da companhia) e eu, que vinha do Conselho de Administração, percebemos que o momento siderúrgico havia mudado e que alguma coisa precisava ser feita (internamente). A Usiminas é uma empresa que historicamente tinha uma direção e ganhou muito dinheiro lá atrás, foi muito lucrativa. Dizer para os colaboradores que agora tem de mudar tudo é um processo muito mais de convencimento, de mostrar uma realidade, do que querer impor alguma coisa. Passado um ano, o clima está bom na empresa. Temos procurado conversar de maneira bastante franca. Eu sou daquele tipo que gosta de transparência, de explicar a realidade seja para o empregado simples ou o mais graduado, sem subestimar a inteligência das pessoas. Isso não impede de implementar reformas, como a enxugada que demos na estrutura organizacional.

A internacionalização foi desenhada em 2008, com a compra de 14,25%da argentina Ternium, cota vendida em 2011 por US$ 1 bilhão. A estratégia incluía a usina Santana de Paraíso, que não saiu do papel. Dá para imaginar um novo passo externo no futuro?

Isso não é prioritário na nossa agenda hoje. Nosso radar está focado no aumento da competitividade das nossas plantas. O conceito de internacionalização que se imaginou naquela época era baseado na planta de Santana do Paraíso, que produziria placas que permitiriam investir fora do país em laminação. O projeto não ficou no papel, ele foi encerrado. A realidade é que instalar uma unidade no Brasil hoje custa US$ 1,8 bilhão, contra US$ 1 bilhão na Índia e US$ 550 milhões na China. O modelo hoje é focar nas unidades internas, pensar na eficiência, competitividade. Até porque, o nosso competidor não está no Brasil, está no mundo e temos de preparar a Usiminas a nível internacional. O processo de internacionalização está adormecido.

O senhor defende mecanismo para evitar a importação agressiva de aço. Como vê a previsão de aumento de produção interna, sendo que somente a Vale deve adicionar 20 milhões de toneladas?

A Vale está falando em projetos de placas. Isso vai exigir um parceiro para laminar essas placas, cujo mercado é relativamente pequeno e se você jogar muitas no mercado vai gerar um excesso. Um exemplo dessa linha da Vale é a parceria com ThyssenKrupp na CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico), que está exportando para laminar na Alemanha e nos EUA. Temos excesso de laminados no Brasil e não faria sentido a Vale investir nessa área.

A Vale criticou a entrada das siderúrgicas na mineração. Mas coloca US$ 21 bilhões em siderurgia. Como vê a crítica?

Há algum tempo nem a mineração entrava em siderurgia, nem a siderurgia entrava na mineração. Havia uma linha tênue em que um não cruzava a do outro. Mas era uma época em que minério era muito mais barato. O mundo mudou e é natural que as siderúrgicas queiram se proteger da flutuação de preço do minério. Se você me perguntar se a Usiminas quer virar uma mineradora, eu vou dizer que não. O minério que estamos produzindo é mais para ser um hedge (proteção) de custo. Temos 70% da nossa empresa de mineração, sendo 30% da Sumitomo. Teremos aproximadamente 20 milhões das 29 milhões de toneladas produzidas, que é mais ou menos o que consumimos.Ou seja, vamos exportar 20 milhões para nos proteger da flutuação dos preços. Vamos continuar sendo cliente da Vale. Até porque a planta de Ipatinga está na logística dela.

O mercado vê como positiva uma parceria com a Gerdau, que entra em chapas grossas com a Aço Minas. A Usiminas transferiria tecnologia e a Gerdau ganharia expertise no tipo de aço usado no pré-sal. Vocês já pensaram nisso?

Não vou entrar no aspecto societário, que cabe aos sócios. Não faria sentido uma parceria sob o ponto de vista acionário, porque ter uma participação em ações numa empresa não significa uma parceria. Agora, sob o ponto de vista da transferência de tecnologia com a Aço Minas, que está na mesma malha logística e tem uma estrutura para 13 milhões de toneladas, se houvesse possibilidade, faz sentido industrial. Mas não me cabe entrar nesse mérito.

Os investimentos iniciados em 2008 somam R$ 10 bilhões até o final deste ano, fora R$ 4 bilhões em mineração até 2015. Dá para vislumbrar no final desse ciclo as margens de lucro robustas de antes da crise?

Eu não acredito mais nas margens em siderurgia que praticávamos no Brasil. Vejo que a Usiminas pode, com esses investimentos, gerar um Ebitda anual de R$ 8,3 bilhões. É um sonho, mas não é um sonho com base no nada. Só a mineração, produzindo 29 milhões de toneladas por ano em 2015, com os preços atuais, pode gerar um grande Ebitda. Podemos conseguir com a siderurgia margens de 28% a 30%, que considero muito boas. Estamos falando hoje de margens que são 7% ou 8% e não serão mais de 40%.

A investida em energia, mineração, melhoria de produção é feita pensando em atingir R$ 50 bilhões em valor de mercado em 2015…

O mercado tem penalizado muito fortemente o setor e a Usiminas, por causa da dependência de minério e energia, tem resultados muito fracos (de avaliação na BM&FBovespa, cotada em cerca de R$ 22 bilhões). Tenho de reconhecer que entre isso e R$ 50 bilhões há um espaço enorme. É um desafio chegar lá, mas esse número não surgiu do nada. Só a mineração, arredondando para 30 milhões de toneladas, com um preço de US$ 150 por tonelada, podemos falar de R$ 3 bilhões de agregação de valor a um dólar de R$ 1,60. É um desafio chegar lá, mas não é um sonho impossível. Imagino em uma empresa integrada em minério, siderurgia e em soluções (aços especiais para construção e indústria naval). Em 2015, vejo uma empresa mais moderna, com mais produtos com maior valor agregado e mais enxuta, mais ágil.

Como a Usiminas de 2015 veria uma concorrente como a CSN no conselho de administração?

Tive uma experiência parecida com essa quando fui presidente da Billiton no Brasil. Durante algum tempo, a Billiton entrou no capital da Vale com uma participação pequena. A Billiton e a Vale não eram grandes competidores, a não ser em alguns pequenos setores como o de alumínio. Quando a Billiton se juntou com a BHP, essa participação continuava existindo e eu, como representante no Brasil, participava do conselho da Vale. Nas reuniões do conselho eu ficava mais fora do que dentro da sala, porque a pauta tinha conflito de interesse. Se essa situação vir a acontecer aqui, vamos ter de nos adequar. A Usiminas tem um grupo de controle e as grandes decisões são tomadas por ele, o que não significa que não respeitamos os membros do conselho.

Dá para criar mecanismo para se proteger da CSN?

Isso é novo e precisamos pensar como seria. Será uma situação diferente.

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