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Presidencialismo de coalizão do PT: caso Jucazinho, irmão de Romero Jucá, revela que o loteamento das funções do Estado é marcado pelo compadrio e fisiologismo


Jucazinho, o retrato do fisiologismo brasileiro

Fonte: Letícia Lins – O Globo

Assucar na receita do fisiologismo
De gerente de restaurante falido a cargos no governo, Jucazinho expõe males do loteamento

Noves fora delitos criminais, a crise nos Transportes e na Agricultura tem origem no loteamento político das funções do Estado, sustentado por compadrio, fisiologismo, nepotismo e interesses partidários inconfessáveis. E a carreira de Oscar Jucá Neto, o Jucazinho, irmão do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-PR), é a cara desse loteamento.

Demitido dia 27 passado do cargo de diretor financeiro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sob suspeita de desvio de verba pública,Jucazinho ficou pouco mais de duas semanas no cargo, depois de ter sido nomeado pela presidente Dilma Rousseff após intensa pressão do líder do governo. Não foi o primeiro emprego que Jucá, o Romero, arrumou para o irmão Jucazinho no governo.

De 2006 a 2009, na gestão Lula, ele trabalhou na Infraero, e foi demitido em escândalo parecido com o de agora, quando a direção da companhia botou para fora afilhados de aliados do então presidente para tentar modernizar a empresa, provocando a ira do PMDB contra a “tesourada” na estatal que gere aeroportos.

Demitido da Infraero, Jucazinho voltou em julho deste ano ao governo, onde comandava orçamento de R$5 bilhões como diretor financeiro da Conab. Apanhado em suposto desvio de R$8 milhões para uma empresa fantasma ligada à família, caiu e acusou o ministro da Agricultura, Wagner Rossi – também indicado pelo PMDB -, de oferecer propina a ele em troca de silêncio, dizendo ainda que “só tem bandido” na Conab e que o órgão é pior que o Dnit, dos Transportes.

Mas, antes dos dois cargos no governo – que obteve tanto no governo Lula como no de Dilma por indicação de Romero Jucá -, Jucazinho não se dera bem com outro irmão, Álvaro Jucá. Isso porque teve atuação desastrosa no gerenciamento do restaurante Assucar, de comida regional, no Centro de Recife, montado por Álvaro.

A empreitada acabou não dando certo por causa da má gestão de Jucazinho – ou Oscarzinho, como é chamado na família -, segundo três pessoas que trabalharam em três setores do restaurante, que funcionava no 1º andar do Paço Alfândega – o shopping center mais luxuoso do Centro de Recife, e que já foi administrado pela família Jucá.

Segundo essas pessoas, Jucazinho se revelou um “péssimo gerente”, e muitas vezes era a mulher dele (Taciana Canavarro) que dava as ordens, porque ele se mostrava sem capacidade para administrar. Também pouco entendia de cozinha, mas vez por outra ficava no local usando a indumentária dos chefs e dando ordens sobre o assunto que não dominava.

O Assucar era voltado à classe A e tinha cardápio contemporâneo, assinado pelo chef César Santos, proprietário do restaurante Oficina do Sabor, um dos mais criativos do estado. Sua inauguração foi precedida de pesquisa histórica e cada prato levava o nome de um engenho tradicional da Zona da Mata pernambucana. O chef não ficou muito tempo no Assucar, e também não quis falar sobre o assunto. Mas, segundo um auxiliar dele, Jucazinho era desorganizado com as compras, não administrava direito o estoque e tinha relação caótica com fornecedores.

– O problema era de gestão mesmo. Chegamos ao Assucar e encontramos excesso de funcionários, contas atrasadas, falta de controle no estoque e compras e vendas totalmente desorganizadas. A casa, apesar de ser uma das preferidas do Centro para recepções, estava no vermelho – lembrou ontem Ronas Vicente, o Tatu, que ficou no restaurante como maître e gerente entre 2005 e 2008.

Tatu tem 24 anos de atuação em restaurantes e espantou-se com a situação do Assucar na era Jucazinho:

– A gente chegou com a função de uma auditoria, porque o que havia ali era falta de gestão mesmo: o restaurante gastava mais do que arrecadava. Tinha funcionários em excesso (40), reduzidos para 26. Também tinha chef demais para pouco índio, era gente demais querendo mandar na cozinha.

Senador defendeu irmão em 2009

Segundo uma das pessoas ouvidas, que pediu para não se identificar e trabalhava no setor de contabilidade, a má gestão terminou induzindo os irmãos a uma briga familiar. O GLOBO procurou Álvaro Jucá no seu escritório, em Recife, mas funcionários informaram que ele estava viajando.

O restaurante fechou em 2005. Em 2006, Jucazinho ganhou o cargo na Infraero, mas trabalhava em Recife, no Aeroporto de Guararapes. Em maio de 2009, numa faxina que não fica muito atrás da que Dilma fez agora nos Transportes, a direção da Infraero desmontou um cabide de empregos no órgão – e, entre os mais de 20 demitidos, estava Jucazinho e sua mulher.

Também como agora – em que a crise, após atingir o PR nos Transportes, bateu à porta do PMDB com as denúncias na Agricultura, e Jucazinho caiu -, a faxina de então chegou ao maior aliado dos petistas. Como os demitidos da Infraero eram apadrinhados do PMDB e até parentes de parlamentares peemedebistas, o partido reagiu com ira ao desmonte, que tinha sido autorizado, porém, pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, da própria sigla. Em outra semelhança com os tempos atuais, aliados ameaçaram retaliar nas votações de interesse do governo no Congresso.

Romero Jucá – que no governo atual fez lobby por cinco meses no Planalto e em gabinetes de ministros em favor do nome do irmão para a Diretoria Financeira da Conab – saiu, na época, em defesa de Jucazinho. “Bom cabrito não berra. Agora, é um absurdo que o governo passe a criminalizar cargo de indicação política. Mas não vou bater boca com o presidente da Infraero. Agora, está claro que é no mínimo uma deselegância”, disse o senador na época. Agora, após a história se repetir e o irmão cair de novo, Romero Jucá se desculpou com a presidente Dilma e desautorizou o irmão, ficando ao lado do ministro Wagner Rossi – que ontem depôs na Câmara.

O episódio da Infraero levou ainda a uma briga pública entre Jobim e Romero Jucá. O ministro reagiu à pressão dos peemedebistas (que ameaçaram, por exemplo, com a CPI da Petrobras), afirmando que deixaria o governo caso os cortes fossem suspensos: “Se não for sério, não é para mim”. Foi, então, a vez de Romero Jucá responder a Jobim, chamando de truculenta a forma como fora tratado (“se tem alguém que não agiu com seriedade, que ele aponte quem é”, disse o senador).

Na tribuna, Jucá afirmou que apresentaria uma emenda estabelecendo que a Defesa fosse ocupada apenas por militares da ativa ou da reserva, que entendessem do assunto. Jobim, então, respondeu que as demissões continuariam: “Vou fazer o que tenho de fazer e ponto. O senador tem direito de apresentar a PEC que bem entender. A questão é aprová-la”.

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