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Mineradoras e usinas de aço: duas realidades – balanços apontam que alta competição estrangeira reduz margem das siderúrgicas


Mineradoras e usinas de aço: duas realidades

Fonte: Ivo Ribeiro* – Valor Econômico

Na próxima semana começa a divulgação da safra de balanços financeiros das empresas de mineração e siderurgia referentes ao segundo trimestre de 2011. Tudo indica que os resultados das fabricantes de aço no período abril a junho, em rota inversa aos das produtoras de minério de ferro, não serão nada exuberantes. Confirmadas as expectativas de especialistas do setor, pouco animadoras, deverão vir bem magrinhos. Na lista de fatores de pressão sobre o desempenho das empresas estão os altos custos das matérias-primas e outros insumos e as baixas margens de preços nas vendas para barrar a entrada de aço estrangeiro.

Esse cenário, para a siderurgia, tende a piorar nos próximos trimestres. Estudo elaborado pelo Citigroup Global Markets em junho que analisa as cadeias produtivas de mineração e de aço em dois períodos distintos aponta que os tempos de vacas magras no setor podem durar pelo menos mais dois anos e meio.

O material mostra um cenário muito difícil, em termos de rentabilidade, para as fabricantes de aço no mundo. Por outro lado, as mineradoras, em especial as de minério de ferro, vão continuar tirando proveito dos preços em alta de seus produtos. Vale, BHP Billiton, Rio Tinto vão se manter, segundo o estudo, com elevadas margens e lucros robustos.

Vale deve gerar valor de US$ 68 bilhões entre 2011 e 2013 
A análise tem como base o sistema EVA (Economic Value Added), uma ferramenta financeira de gestão e que é medida de lucro econômico das empresas. A grosso modo, o EVA corresponde ao lucro operacional líquido após os impostos menos os encargos sobre o capital investido. É usado para medir o valor criado ou destruído nas companhias para seus acionistas.

No caso da siderurgia, o estudo indica que a destruição de valor das empresas vai se deteriorar, devido a preços deprimidos, baixas margens e a pressões de custos das duas principais matérias-primas: minério de ferro e carvão. Ambas tiveram uma escalada de reajustes desde 2005 que só foi interrompida durante a crise de 2008/2009. No minério de ferro, mais de 700%; no carvão, 475%.

O estudo, de 104 páginas, abrange dois períodos: de 2005 a 2010 e de 2011 a 2013.

No primeiro deles, a geração de valor das fabricantes de aço selecionadas foi positiva em US$ 20 bilhões. O desempenho ocorreu mesmo no período de explosão dos preços do minério, que superaram US$ 200 por tonelada e continuam pouco abaixo desse valor. A Posco, usina sul-coreana, teve o melhor desempenho – US$ 10,8 bilhões. Na outra ponta está a ArcelorMittal, com US$ 9,9 bilhões de destruição de valor.

Das brasileiras, a CSN – dona do seu próprio minério e de fontes de energia – apresentou criação de valor de US$ 3,15 bilhões. A Usiminas, de US$ 2,1 bilhões. Já a Gerdau aparece com US$ 302 milhões negativos.

Do lado das mineradoras, uma mar de rosas: só BHP, Vale e Rio Tinto somaram US$ 150 bilhões de geração de valor. A companhia brasileira, segundo o estudo, obteve US$ 57 bilhões.

No segundo cenário, deste ano a 2013, as três gigantes da mineração de ferro melhoram ainda mais seu EVA: deverão atingir US$ 172 bilhões. A Vale adiciona US$ 11 bilhões e a Rio Tinto quase dobra o valor.

Na indústria do aço, a situação piora e se inverte: o EVA das mesmas companhias analisadas fica negativo em mais de US$ 17 bilhões. A CSN assume a liderança na geração de valor, com US$ 4,4 bilhões, enquanto a ArcelorMittal permanece com EVA negativo de US$ 9,3 bilhões. É seguida por Usiminas (US$ 5 bilhões), Nippon Steel (US$ 3,5 bilhões) e Gerdau (US$ 2,95 bilhões) numa lista que engloba mais de 20 empresas com mesmo perfil.

O retrato do Citigroup, com base nos critérios do EVA, mostra que, das quatro grandes siderúrgicas que atuam no Brasil, só uma se sai bem: a CSN.

Isso será um elemento a mais a compor os alertas que as usinas do país têm enviado à Brasília. Apontam que há aço demais no mundo e que essa sobra, da China e outras partes do mundo, vem inundando o mercado nacional, sufocando as empresas. Vão além: com a atual taxa de câmbio e outros fatores, como aguerra fiscal entre os Estados, a entrada de produtos acabados de diversos mercados pode resultar em um desastre maior na indústria. Cada carro, equipamento, autopeça ou outro produto feito em aço que chega ao país significa menos venda de aço pelas usinas locais.

Para se protegerem das altas das matérias-primas, as siderúrgicas deixaram de lado novos projetos. Verticalização é a palavra de ordem, com foco em minério de ferro, energia e logística. No ano passado, a Usiminas cancelou nova usina em Minas, de US$ 5 bilhões. A CSN não levou avante nenhum dos projetosque anunciou no país – desde 2007 todo seu esforço é canalizado para mineração e cimento. O grupo Gerdau também segue o mesmo caminho, investindo para ter 100% de matéria-prima própria na sua maior usina, a Açominas.

Os balanços de Usiminas e CSN desde o quarto trimestre de 2010 falam por si só: a atividade de mineração se tornou bem mais atrativa do que fazer aço. Na siderúrgica mineira, a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi de 4% no primeiro trimestre, bem longe dos 65% do minério de ferro. A margem da CSN nesse negócio não foi diferente (65,5%), comparada a 30% no aço. Com menos de um terço da receita líquida da empresa, mineração respondeu por 49% do Ebitda.

Isso não deverá mudar nos números do segundo trimestre.

*Ivo Ribeiro é editor de Indústrias e Infraestrutura.

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